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    September 13

    Já nem sei se é meninice

    "Que me perdoem
    Se eu insisto nesse tema
    Mas não sei fazer poema
    Ou canção
    Que fale de outra coisa que
    Não seja o amor"
     
    Não recordo quem escreveu os versos acima, mas queria que fossem meus.
    August 28

    Catando a poesia

    Eu não costumava ouvir Chico Buarque quando criança, a não ser quando eu passava férias na grande casa com pomar de um tio, Fernando. As recordações das férias tirando caju no pé são das melhores. Recordo de quando me espetei nas folhas de um abacaxi ainda na terra, e o meu tio dizia que iria nascer um abacaxi nas minhas pernas: eu acreditava. E chorava.
     
    Mas recordo dos finais de tarde. Voltávamos do futebol no campinho e eu ia pro banho sob os protestos da minha tia que dizia que eu me sujava muito.
     
    Enquanto eu tomava banho naquele banheiro de pouca luz, meu tio ligava a vitrola (sim, vitrola) e colocava pra tocar Noel Rosa, Nelson Gonçalves, Cartola e Chico Buarque. Lembro de saber de cor Conversa de Botequim do Noel, era minha preferida. Ouvi-la nos comerciais dos classificados do Globo era, ao mesmo tempo, nostálgico e irritante. O comercial não poderia me fazer esquecer minha infância pra me fazer lembrar do 534-4333 ao ouvir a música de Noel.
     
    O fato é que eu cresci. Deixei de freqüentar a casa do tio Fernando por muitos motivos, mas nunca esqueci da fase feliz da minha infância, nem mesmo sob o forte apelo do 534-4333.
     
    Os anos passaram, e eu entrei na faculdade. Detestei a faculdade de Direito. E em um dia não querendo ir, eu fui, mas passei no Centro primeiro. Entrei numa loja que vendia discos antigos, procurei promoções, encontrei uma coletânea do Chico Buarque por R$ 10 - relutei. Queria mesmo o CD do Charlie Brown Jr., mas custava R$ 25. Levei o Chico.
     
    Ao chegar em casa, coloquei o CD de 20 músicas no rádio, e deixei tocar. Eu renasci. Desenterrei as letras do meu inconsciente e a melodia da minha infância tornou a residir no mais espaço mais íntimo dos meus ouvidos.
     
    Não vivo mais sem Chico Buarque desde então. Não há coletânea em que ele falte. Conheço a discografia, me emocionei com Budapeste, comprei biografia, livro com todas as letras, e agora choro com Carioca. Cada vez que acho que não haverá surpresa, há. E não é com as músicas novas, mas com as antigas. Cada música me surpreende em momentos diferentes, parece que tudo estava escrito antes de eu nascer pra minha vida - e tudo isso é tão clichê.
     
    O depoimento pode parecer o relato de um fã, mas não era pra ser.
     
    Chico é a síntese da minha infância, ele ouviu tudo o que eu ouvi quando eu era criança nas minhas férias. E hoje ele toca tudo o que eu ouço e vivo a cada momento.

    Palavra de Mulher

    Chico Buarque/1985
    Para o filme Ópera do malandro, de Ruy Guerra  

    Vou voltar
    Haja o que houver, eu vou voltar
    Já te deixei jurando nunca mais olhar pra trás
    Palavra de mulher, eu vou voltar
    Posso até
    Sair de bar em bar, falar besteira
    E me enganar
    Com qualquer um deitar
    A noite inteira
    Eu vou te amar

    Vou chegar
    A qualquer hora ao meu lugar
    E se uma outra pretendia um dia te roubar
    Dispensa essa vadia
    Eu vou voltar
    Vou subir
    A nossa escada, a escada, a escada, a escada
    Meu amor, eu vou partir
    De novo e sempre, feito viciada
    Eu vou voltar

    Pode ser
    Que a nossa história
    Seja mais uma quimera
    E pode o nosso teto, a Lapa, o Rio desabar
    Pode ser
    Que passe o nosso tempo
    Como qualquer primavera.
    Espera
    Me espera
    Eu vou voltar



    1985 © - Marola Edições Musicais Ltda.
    Todos os direitos reservados
    Direitos de Execução Pública controlados pelo ECAD (AMAR) Internacional Copyright Secured
     
    July 26

    Sem pauta

    O breu da madrugada escondia o horizonte. Entre o céu e o mar, nenhuma linha que indicasse onde um começava e o outro terminava. Sabia apenas que o velho dia já havia sucumbido às primeiras horas da madrugada.

    A praia deserta, um policial na ronda noturna, um casal nas pedras, e nós. Ela e eu enlaçados em direção às pedras do Arpoador.

    Era estranho aos dois estarem ali, tão de repente. Mas ali estavam. Ali amavam.

    Ela era uma morena de pernas suculentas. E não apenas as pernas, o corpo todo era pecaminoso: seios, braços, quadril, e aquele sorriso desaforadamente sedutor. O sorriso dela era qualquer coisa de alegria e contento, era uma curva de destaque entre todas as outras que possuía. Tinha ela 20 anos e poucos sonhos, mas julgava muitos.

    Conhecemo-nos no colegial e, desde então, nutríamos um pelo outro um desejo voraz que por muito tempo nos consumiu em um silêncio solitário, até que sob uma torrencial chuva no fim de uma tarde de domingo, ela me convidou a habitar-lhe as pernas e inocular naquele sorriso toda a torpeza de minha volúpia.

    Desde então passamos a nos encontrar com a freqüência e a intensidade dos grandes temporais. Tornamo-nos amantes e nos víamos apenas quando a vida nos dava chance de lhe trair, e nos encontrávamos intensos, flamejantes, e resplandecentes como relâmpagos. E tão-logo nos encontrávamos, despedíamo-nos. Em nossos corpos restavam as poças que faziam prova da tempestade que passara.

    Passamos um reveillon juntos nas areias de Copacabana. Envoltos pela alegria incontida dos espectadores, pela multidão que se espremia e tropeçava em nós, pela emoção da contagem regressiva ao lado dela, pela fumaça que encobria os fogos, eu, incrédulo, caminhei ao mar e deixei a onda molhar meus sapatos. Procurei o horizonte sem encontrá-lo; procurei razão nas flores lançadas ao mar sem encontrá-la; procurei estrelas sem encontrá-las; procurei sentido em estar ali, e encontrei um sorriso, um beijo, e um “Feliz ano novo”. O mar ainda molhava meus sapatos, e molhava agora os pés dela descalços – trazia nas mãos as sandálias que logo perderia.

    O mar encharcou meus sapatos. E ao chegar em casa, sozinho, o sol do novo ano estava alto. Tirei os sapatos, bati-os no chão, a sala se encheu de areia e levei os sapatos até o quarto, e a cama foi o destino mais óbvio.

    Eu estava de volta ao mar, mergulhando, e senti meu corpo boiar, e eu era carregado pelas ondas, e fechei os olhos esperando socorro. E tornava a abrir os olhos esperando ajuda, e tornava a fechá-los ainda esperançosos. Senti meu braço puxado pro fundo, cerrei ainda mais os olhos. A maré encobria meu rosto, e eu não ouvia mais nada que não fossem meus próprios gemidos. Foi a porta bater e eu acordar. Lembrei-me de deixar mais vezes a porta da varanda aberta pra não morrer de aflição nos meus intermitentes sonhos de afogamento.

    Cuidei de levantar e me lavar. Tinha sal em meu corpo todo, mas sentia o cheiro dela espalhado nos meus braços, no meu peito, nas minhas mãos, e não queria limpá-la de mim. Catei o celular no chão e quis encontrá-la, mas ela não quis. Ela havia me beijado, mas me recusou pelo resto da noite de 31: sem dizer porquês, sem dizer nada. Eu também calei até nos despedirmos.

    Voltei à praia, tirei as sandálias pra pisar na areia ainda suja daquela Copacabana pós-reveillon, molhei os pés e sentei à beira das ondas. Com o caule de uma flor devolvida pelo mar tentei escrever na areia alguma coisa. Nada além do nome dela aquela flor escrevia. A cada vez que o mar apagava, mais insistentemente a flor escrevia na areia, até eu lembrar da angústia do sonho, meu corpo boiando, os olhos cerrados, a mão que puxava pro fundo, o beijo, o “feliz ano novo”, as sandálias perdidas, a fumaça, o horizonte perdido, o nome dela na areia, que o mar voltou a apagar.

    Em setembro as noites costumam ser frias, e antes de partirmos ao Arpoador, pedi a ela que vestisse um casaco. Quando veio, vestia uma leve saia verde cobrindo os quadris, sem ocultar as pernas; o casaco branco cobria a camiseta de mesma cor; vestia também um desejo de se deixar amar à beira-mar, em uma fantasia romântica que lhe fosse inédita.

    Voltávamos ao mar pelo calçadão do Arpoador. Fugimos da areia úmida da madrugada e subimos nas pedras, demos a volta pelo canto da Praia do Diabo, e sentamos voltados para o Leblon. Contemplávamos as luzes da orla, a silhueta luminosa do Vidigal e um ao outro. Eu mergulhei nos lábios dela e a tocava, éramos ofegantes, e senti meu corpo boiar, e eu era carregado pros seios dela, minha mão puxava pra baixo da saia dela, cerrei mais os olhos. Os cabelos esvoaçantes dela encobriam meu rosto, e eu não ouvia mais nada que não fossem os gemidos dela.

    Disse-lhe obviedades românticas ao ouvido quando descíamos as pedras. Ela confessava sonhos, dividia vivências cotidianas, e, tão de repente, estávamos ali, com fogos de artifícios sobre nossas cabeças, em Ipanema, em setembro, e sem precisar lançar mão das metáforas os fogos explodiam sobre nós. Os fogos que a fumaça do reveillon nos havia poupado, e desta vez a praia era nossa, e ela era minha, sem pudores, sem temores, e estávamos ali, e tão de repente. Amávamo-nos.

    À beira-mar seguimos até o mirante do Leblon. De lá, procurei o destino sem encontrar; procurei uma razão sem achar; procurei naquela noite a linha do horizonte para escrever nela a nossa história, mas não havia linha pra escrever essa história sem destino batizada no mar, não havia linha pra escrever um destino desalinhado, não há linha no horizonte pra uma história sem pauta. 

    May 06

    Ousar

    E se assim for, assim será.

    Importa que o coração mande e a razão se estrupilhe:

    Mais agir, menos pensar.

    Falar duas vezes antes do pensamento,

    E ousar.

     

    A cada ato não encenado,

    Menos sentido;

    Menos completa;

    Mais sem graça

    A peça que a vida prega e interpreta.

     

    Cala-te, cabeça! E discursa, coração!

    Filosofia nenhuma lhe interromperá.

    Busca o que teu for por vontade,

    E esquece o que for por direito,

    O amor não tem lógica racional

     

    Que lhe explique: faltam palavras.

    Não há amor que se sustente por premissas,

    Teses, hipóteses, sínteses, ou antíteses.

    Rasgo os dogmas, os axiomas, e as verdades

    Pra viver, de fato, os desejos que puder.

     

    E se não puder... Ah!, desafio a vida a me proibir.

    May 02

    Os versos mais tristes

    "Posso escrever os versos mais tristes esta noite.
    Eu amei-a e por vezes ela também me amou.
    Em noites como esta tive-a em meus braços.
    Beijei-a tantas vezes sob o céu infinito.

    "(...) Ouvir a noite imensa, mais imensa sem ela.
    E o verso cai na alma como no pasto o orvalho.
    Importa lá que o meu amor não pudesse guardá-la.
    A noite está estrelada e ela não está comigo.

    "(...) De outro. Será de outro. Como antes dos meus beijos.
    A voz, o corpo claro. Os seus olhos infinitos.
    Já não a amo, é verdade, mas talvez a ame ainda.
    É tão curto o amor, tão longo o esquecimento.

    "Porque em noites como esta tive-a em meus braços,
    a minha alma não se contenta por havê-la perdido.
    Embora seja a última dor que ela me causa,
    e estes sejam os últimos versos que lhe escrevo."

    Pablo Neruda


    E por si só, ele se basta.

    Robson.

    June 27

    Escrever é...

    Quase analfabeto. Sem palavras, minha mente se encontra em uma marasmo intelectual sem precedentes. A ausência de palavras é tamanha que por vezes me pergunto se me falta leitura. Mas não, não é leitura apenas que me falta, mas paixões.
     
    Escrever é se arrebatar; jogar-se à imensidão solitária do papel em busca de bons encontros (sábio Spinoza). E me faltava paixão! Não a paixão-lugar-comum, mas a larga e aventurosa paixão pelo novo!; corroer-se por dentro ao lembrar do que acaba de acontecer como se fosse a mais antiga das lembranças; lançar-se ao ar em devaneios tortos pra cruzar a fronteira do infindável.
     
    Escrever apaixonado é, sem querer ser clichê, sê-lo; querer inovar, sem fazê-lo. Mas apaixonar-se escrevendo é também inspirador.
     
    Canto sem perceber que aos cantos se espalha minha voz, perdida em tons diversos em uníssona desarmonia: é a música um texto de cinco linhas.
     
    Ao despertar recrio o sonho das letras: um banho de letras frias e uma brisa quente de coesão, uma toalha pra secar as redundâncias, metáforas pra perfumar. A roupa em estilo formal, quase parnasiana. Os cardaços de coerência bem amarrados. Um título de abas curtas pra não expor a face ao raios fortes da amibigüidade. Estou pronto pra sair. Passos elegantes às primeiras linhas. Passos fortes e sem ritmo no clímax. Passos mansos e descansados no fim.
     
    Ao final, percebo que escrever é um ritual de paixão e som, de ritmo e dor, de momento e prazer. Escrever, acima de tudo, é não saber o que se quer escrever e escrever sem saber o que quer.
    April 01

    MANGUE SECO

    A todos que estiveram ontem no Mangue Seco:
     
    Não tenho palavras pra agradecer a presença de todos vocês, e espero que tenham gostado. Postei todas as fotos aqui no espaço. Sem muito tempo pra dizer mais por agora, despeço-me com o coração cheio de alegria por ter encontrado ontem grandes e leais amigos.
     
    Abraços e beijos.
     
    Robson Melo
    February 27

    The first cut is the deepest

    Pare e pense: em quem você pode confiar? Depois, desmembre mais ainda esse pensamento, e pense no que é confiança. Então, torne a torturar seus neurônios e me responda o que é desconfiança?
     
    Pois é, este tem sido um dilema.
     
    Por que confiar em alguém?
     
    "The first cut is the deepest". Ouvi hoje essa frase, título de uma música de Sheryl Crow: o primeiro corte é o mais profundo, e como eu sei disso. Nunca mais serei o mesmo depois que me traíram a confiança, não terei mais o mesmo romantismo, a mesma crença no amor, e sei que isso faz parte do crescimento: a dor da decepção, ainda mais de quando é a primeira.
     
    A confiança é resultado da ausência de más atitudes pelas pessoas que gostamos, ou a reiteração de boas atitudes. No entanto, nada disso torna ninguém capaz de fazer ou passar a fazer coisas ruins e deixar de fazer as boas. Confiança é uma proteção que tentamos usar, mas que acaba por machucar ainda mais.
     
    Decepção é algo rotineiro e a vida é cheio delas. Confiar é crer, e crer é fruto de abstração, não é nada real. Então por que confiar? As pessoas são dignas disso?
     
    Digo que não. Minhas experiências mostram isso a cada dia. É claro e evidente que confiança é algo perigoso, mas desde pequenos somos instruídos a confiar. Forçam-nos a acreditar e confiar em um número limitado de pessoas, como se elas fossem as únicas detentoras da segurança, da felicidade. Veja-se, por exemplo, que daí sugem os altíssimos índices de morte entre pessoas de mesma família, ou de abuso sexual, ou de violência gratuita.
     
    Ora, em quem confiar então? A questão não reside em quem, mas em confiar. Confiança deveria ser abolida. Talvez uma presunção de normalidade de conduta sustentaria os modelos racionais da civilização moderna. Mas quem disse que esses modelos são os melhores?
     
    Decerto, digo-lhes que a razão deste texto é uma decepção, mas que ao invés de sentí-la e sofrê-la no íntimo do meu peito, racionalizo-a e tento entender o motivo de não mais confiar nas pessoas que gosto.
    November 06

    Sonetos de Desilusão

    SONETO I
     
    Persisto no erro a cada passo,
    Resido em desprezo ao bem do acaso,
    Perdi a mim mesmo dentro dos braços
    Daquela branca de pés descalços.
     
    Fui dela todo pelos meus dezeanos,
    Perto aos vinte lhe entreguei aos danos
    Do mundo fétido dos meus  próximos.
    Ensinaram a ela como são pródigos.
     
    Gastaram-lhe tanto as pernas quanto os seios,
    Fizeram-na de repouso para seus anseios.
    Saciados, jogaram-lhe às sarjetas da cidade
     
    E por haver de querê-la sem motivo
    Recolhi do chão o resto dela vivo
    Solitário e amargo, sem mais vaidade
     
    SONETO II
     
    Do relento, tirei-lhe ainda sã e bem composta
    Acreditei cego que venceria a minha aposta.
    Dei-lhe de mim a alegria repleta de meus tempos
    Ouvi-lhe sereno as agonias e mesmo os lamentos
     
    Deu-me a paz de seu ventre em recompensa,
    Permitiu-me pela noite que lhe fizesse ofensa.
    Louca, serviu-me à cama sua lúbrica juventude,
    E sua boca me inoculou de prazeres amiúde.
     
    Mas feneço a cada abraço em que ela me beija,
    Pereço a cada olhar lascivo que tácito ela deixa.
    Conquanto não a queira amar, resta-me dúvida:
     
    Ama-me ou fui único que lhe deu amor sem queixa?
    Disso, resta-me certeza de que amor que se deseja
    É inalcançável até a morte, e  impossível nesta vida.
     
     
    Robson Melo
     

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    August 04

    Pra que ela não me esqueça

    Disse coisas a ela que ninguém mais disse
    Fiz nela carícias que ninguém ousou tentar
    Calei-me frente dela quando todos falariam
    Refutei tocá-la quando qualquer um a tocaria

    Fui o homem que ela nunca imaginou ter
    Fui antes de tudo, homem, como nenhum outro foi

    Beijei-a enquanto ela esperava a retórica dos tolos
    Fi-la minha quando ela queria sentir-se possuída
    Encantei com meus versos quando ela temia o prosaico
    Fui a surpresa insana que invadiu-lha a monotonia eloqüente

    Fui o homem que ela nunca encontrou em nenhum outro
    Fui antes de tudo, homem, qual ela nunca imaginou

    Enlacei minhas pernas com as dela só por carinho
    Cruzei forte nossos dedos pra despertar desejo
    Mostrei-lhe minha força nos braços que pareciam fracos
    Desejei-a com os lábios ferozes que insinuavam tímidos

    Fui o que ela nunca encontrou: homem
    Fui antes de tudo nenhum outro que fosse de imaginar

    Dei-lhe a noite de brinquedo, enquanto ela esperava dia
    Fiz nascer o sol pra ela, quando a lua já lhe era pouco
    De presente, dei-lhe o raiar de um dia que já era dela
    Dia que ninguém além de mim pensou em, pra ela, roubar

    Fui o que ela encontrou na imaginação
    Fui, como nenhum outro homem, antes de tudo

    Medi meus toques, controlei meus impulsos, mas finji-me voraz
    Desejei-lhe sem pudor, esqueçi da vergonha, mas fiz-me singelo
    Atuei no tablado do corpo dela enquanto foi à cochia fantasiar-se
    E quando voltou(,) de fantasia, detive-me no drama de seus seios

    Fui o homem, a imaginação, o nunca, o depois
    Fui o antes, o tudo, o outro, o nenhum

    Fui, dela, a simples complexidade de sentir-se mulher


    Robson Melo


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    July 17

    Soneto ao fogo, no inverno

    Enquanto cai a noite fria sobre nossos corpos,
    Laceamos nossas mãos em profunda volúpia,
    Entregamos, em olhares, os desejos mais ardorosos,
    Flamejantes e inquietos de uma alegria dúbia.
     
    Cobre-me o véu lânguido dos cabelos teus.
    Inebriantes ondas escuras onde ouso navegar.
    Que turvam meu peito, e sem temor a Deus,
    Tentam-me a carne; fazem-me pecar.
     
    Quanto ao calor que tua carne propaga,
    Derrete meu sono; minhas noites; minha calma.
    É algo que consome os sentidos e não se apaga.
     
     
    Por ser desejo, tu és linda e envolvente;
    Por ser mulher, tu és da existência, o sentido
    Por ser tu, és amor em sua forma mais quente.
     
    Rio, 17 de julho de 2005
     
    Robson Melo
     
     
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    July 16

    Quem tá certo?

    Contra Deus e contra as leis
    Contra o mundo de mentira
    Desorganizem o modelo
    O progresso ta na mira
     
    A verdade escondida
    Num cofre do Estado
    Guardado a quinze chaves
    Com corrente e cadeado
     
    Liberdade vigiada
    Por câmeras escondidas
    Não sei quem me vigia
    Quem controla minha vida?
     
    Ação e reação
    De um mal por nós gerado
    Se não fossem os muros
    Não seriam pichados
     
    A casa caiu, meu irmão
    Verme, bandido, assassino!
    De quem tu ta falando?
    Da polícia ou do menino?
     
    Cadê o Estado? Cadê a verdade?
    Cadê essa tal de felicidade?
     
    Me deram as leis
    E disseram pra mim
    Que com elas nas mãos
    Tudo iria ter fim
     
    Mas as leis não tem valor
    Mentiram pra gente
    Essa porra é um horror
    Imundaram sua mente
     
    Democracia é o que?
    É povo com poder
    Então cadê o poder?
    O povo quer saber.
     
    Essa merda de imprensa
    Celebridades idiotas
    Célebre burrice
    De mentiras e lorotas
    Eu vivo o pesadelo
    Da juventude fútil
    Pegar, ficar, traçar
    Não fazer nada de útil
     
    Cadê a justiça? Cadê o poder?
    Cadê o respeito e a vontade de fazer?
     
    To com a arma apontada
    Pra cabeça do seu pai
    Seqüestros e assaltos
    Não te deixam mais em paz
     
    Acabou o teu sossego
    A guerra ta na rua
    Você não tem emprego
    E a culpa não é sua
     
    Justiça não existe
    A lei é a do cão
    Ou você já ouviu falar
    Em constituição?
     
    Defenda seu país
    Proteja sua pátria
    De barriga vazia
    Você morre ou mata
     
    Seja feliz, meu irmão
    Trabalhe.
    E não vire ladrão
    Porque se você roubar
    A cadeia te espera
    Cheia de bandidos
    Dentro e fora dela
    Não seja do crime
    Não roube, não fume
    Não atire, não me mate
    Leve tudo!
    Tudo.
     
    PA-PARA-PAPA! BUM! BUM! BUM!
     
    Minha vida se foi.
    E a sua foi também.
    Estamos livres do mundo
    Não somos mais de ninguém
     
    Robson Melo
     
     
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    July 15

    Ah!

    Ah! Se minha tu fosses
    Como tudo mais reluziria
    Teu corpo a mim serviria
    Teus olhos em minhas posses

     

    Ah! Se o sorriso lindo teu
    Encontrasse os meus lábios
    Morreriam de inveja os sábios
    Dessa felicidade é ao lado teu

     

    Ah! Se eu caísse no pecado
    Seria ti a própria perdição
    E a alegria de arder ao teu lado

     

    Abandonaria o mundo por ti
    Daria por ti, o meu coração
    Ah! Se tu estivesses aqui

     

    Robson Melo

      

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    July 14

    Não te amaria

    São meus olhos os culpados.
    Maldigo tê-los em minha face.
    Não fossem meus olhos, eu não te veria.
    Não fossem eles, não te quereria.
    Sem ver teu rosto, não te amaria.
     
    Meus ouvidos são malditos.
    Ouvem-te sublime e afinada.
    Ausente deles, não te escutaria.
    Sem ouvidos, mais feliz eu seria.
    Não fosse tua voz, não te amaria.
     
    Mas má é também a minha boca,
    Se não sinto teu doce lábio lúbrico.
    Sem ela, amor a ti, eu não diria.
    Boca ignóbil!, em mim não serviria
    Sem oscular teu mel, não te amaria.
     
    Mãos e pele não me servem,
    Se há ausência do calor que é teu.
    Fosse nada meu corpo, não desejaria
    E o ardor lascivo não me consumiria
    Não fosse meu querer, não te amaria.
     
    Meu nariz eu quero condenar
    Teu cheiro me enfeitiça fácil.
    Entorpece tua essência que me faria
    Dependente de um aroma que acabaria
    E não fosse o vício, não te amaria.
     
    Mas malévolo e perverso é meu coração
    Guarda tua imagem perpetuamente
    Não fosse meu peito, te destruiria
    Sem ele, eu nem ao menos te sentiria
    Mas com ele eu somente te amo, Maria.
     
    Robson Melo


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    Porta-retrato

    Porta-retrato

    O meu peito todo é

    O seu porta-retrato

    E quando quero ver

    Você no meu quarto

    Lembro seus cabelos

    Cobrindo o meu rosto

     

    Desejo-lhe as pernas

    Também os seus braços

    Lembro-me das cenas

    De seus embaraços

    Cores suas, morena

    De todos seus espaços

     

    Esse seu retrato em mim

    Não me sossega o sono

    Pois, ensandece, outrossim

    Pelo medo do abandono

    Não que eu quisesse assim

    Mas não sou o meu dono

     

    Pinto seu retrato mágico

    Sobre tela de papel fino

    Tintas desse pincel único:

    Minha candura de menino

    Traços de pintor cínico

    Corrompido e libertino

     

    São derradeiros os versos

    As memórias deveriam ser

    Também assim, mas peço

    Que essas fotos de você

    Essas que nunca esqueço

    Sejam, pra mim, o fenecer




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    A patir de hoje, tornarei a internet um lugar onde publicarei algumas coisas que escrevo. Serão as minhas idéias, os meus sonhos e as minhas mentiras. Mas estarão disponíveis àqueles que quiserem. Pelo menos, por agora agora, somente amigos como você poderão acessar.
    A distribuição é livre. Caso queira, pode repassar os textos a quem você quiser, desde que acompanhe a licença de distribuição abaixo. Preserve os direitos autorais, mas divulgue o que achar importante.
    Sem mais, fica um abraço e a esperança de que goste desse lugar e de todos os outros lugares para os quais poderá partir através dele.
     
    Robson Melo
     
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